domingo, 3 de maio de 2020

A matriarca



Os dias disto e daquilo são qualquer coisa simbólica, completamente canibalizada pelo comércio. Entendo sem paixão o carácter simbólico, desde sempre que a humanidade o respira. Desprezo um bocadinho o lado comercial, sobretudo porque se tornou excessivo, imperativo e nos subjugou, sem uma oferta é como se nada existisse. E não sou fã de rosas, a flor que mais circulará no dia de hoje.

Muitas vezes fui passar este dia com a minha mãe, outras não fui, aconteceu igual com a minha filha, sem dramas.

Pensei, contudo, em Janeiro, que a minha mãe jamais comemoraria este dia, vendo-a frágil e praticamente acamada. Mas é espantosa a sua capacidade de resistência. Ainda ontem me disse que já estava a tentar andar sem recorrer à bengala, alerto para o perigo, mas sei que pouco adianta, fará sempre o que bem entender. E ontem resolveu que havia de fazer um bolo para o dia de hoje, com a ajuda da neta mais velha que conseguiu ir para perto dela, após validação do seu tempo de quarentena. Não recorreu a receita já antiga, decorou-a a partir de um programa de televisão qualquer. Isto tudo com uma visão de cerca de 30% da normal, fruto de uma doença degenerativa que a tem levado progressivamente a ver menos e menos, o que lhe causa grande tristeza. Mas tristeza é nela coisa que não vem para ficar. Entre nós chamamos-lhe a matriarca e é com o seu nome que vive o whatsApp da família. Se foi uma mãe exemplar? Não, não foi. Foi humana, cheia de erros e imperfeições e coisas de que me envergonhei. Talvez me tenha deixado algumas marcas, daquelas que se exploram no divã do psicanalista. Mas não é isso viver? Não são isso as relações humanas? Hoje compreendo-a e nem preciso de perdão para as coisas menos boas, simplesmente elas fizeram parte do percurso.


~CC~


10 comentários:

  1. Juntas ou separadas, desejo a ambas um dia muito feliz, cheio de alegria e vontade de viver.
    Ah, e que o bolo seja um sucesso :))
    Nunca gostei deste dia da mãe móvel em Maio, preferia quando era fixo, a 8 de Dezembro.
    Mas sempre o festejei, claro.
    Hoje não há muita alegria por aqui (afinal o confinamento já dura há 15 meses), mas não faz mal, dia da mãe são todos os dias ou quando mãe e filha quiserem e puderem...

    Abracinho
    🌻

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    1. Maria, os confinamentos são assim, têm uma certa dose de tristeza. E essa senhora que a vinha ajudar? Não será tempo de voltar? A Maria deve estar a precisar de uns dias para respirar.
      ~CC~

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  2. Admiro a sinceridade desconcertante com que fez aqui a sua catarse. Já ajuda, espero. Não sei se o perdão faz parte de todos os credos e confissões, mas fá-lo sem dúvida da nossa moral. Um excelente dia para si, que é mãe e filha, e brindemos a talvez o único dia da mãe sem prendas.

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    1. Joaquim, não foi fácil chegar até aqui, mas cheguei:)
      ~CC~

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  3. Nestes tempos difíceis de confinamento, venho desejar
    .
    Um domingo feliz
    Um dia da mão esplendoroso de amor
    Cuide-se

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    1. Obrigada, espero que o seu também tenha sido bom.
      ~CC~

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  4. Mães e filhas são humanas. Todas partilhamos defeitos e virtudes. Um dia feliz, CC. :)

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    1. Sem dúvida Luísa, mas tendemos a castigar o outro pelas falhas, até as vermos em nós (essas ou outras).
      ~CC~

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  5. Dia da mãe tem por número 365, ou 366, num dia apenas não conseguirá nunca caber uma mãe, dessas perfeitamente imperfeitas, as mesmas que só entendemos bem mais tarde, mas quase sempre a tempo.
    Beijinhos para mãe e filha e filha da mãe :-)

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  6. Perfeitamente imperfeitas, que expressão feliz:)
    ~CC~

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