domingo, 8 de março de 2026

Musiquinha de Domingo (XV)

 

Tenho uma grande admiração por esta mulher e o documentário sobre a vida dela foi das coisas mais bonitas que vi no cinema.




Hoje com acompanhamento da crónica de Lobo Antunes na revista Visão (cujos trabalhadores andam na luta para ver se não acaba).

As mulheres têm os fios desligados.

"Há uns tempos a Joana,
- Pai, acabei um namoro à homem.
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
-Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou-me mas foi
- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)
ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
-Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca.
Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto.
Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me."

António Lobo Antunes


8 comentários:

  1. Prefiro os livros, mas as crónicas são uma ternura.
    Não conheço o filme sobre Cesária, mas gosto-lhe do tom.

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    1. Veja se puder...não se vai arrepender. Ele dizia que as crónicas eram a piscina das crianças...mesmo dele! Mas somos todos um pouco crianças sempre...

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  2. fiquei desapontado com a Cesária depois de uma entrevista que ela deu em tempos.
    já de Lobo Antunes todas as crónicas são muito bem-vindas, embora continue a gostar muito de Memória de Elefante, Cu de Judas, O tamanho do mundo, Fado Alexandrino e Manual dos inquisidores
    já quanto à Visão, deixo um bem haja aquele punhado de homens e mulheres que semana a semana lutam por uma imprensa livre

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    1. A Cesária tinha muitas contradições sim e pouca consciência política. Mas foi uma mulher e tanto, vale mais pelo que fez do que por aquilo que diz...o documentário mostra-nos a mulher em todas as suas facetas, algumas que me eram desconhecidas como o tempo que se fechou só em casa (curiosamente na sequência da descolonização que creio ela não entendeu logo). Estou certa que um dia voltarei a Lobo Antunes, para além das crónicas, preciso de tempo para isso. Resto de boa semana!

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  3. Não viu a última porta chegar antes da noite, como diz o título de um de seus últimos romances, porque há alguns anos ele não tinha consciência de si mesmo. Se o fio de fumaça do último de seus amados cigarros tivesse sobrevivido a ele por mais tempo, ele teria se divertido. Ele será lembrado por muito tempo pela ousada beleza da sua prosa e pela lealdade irredutível ao humano, onde quer que ainda esteja disponível.

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    1. Bela frase, era pródigo nelas, muitas delas títulos dos seus livros. Voltarei um dia à sua obra.

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  4. Cesária Évora é, ela própria, um poema que trago na minha memória.
    António Lobo Antunes é a sedução da sua forma de escrever, única e dificilmente será inventado algo melhor.
    Um abraço.

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    1. Também acho, é uma mulher poema. Creio no futuro, haverá sempre alguém a inventar a Língua Portuguesa, parece que nos está na pele, muito embora ele pouco gostasse dos nossos escritores (tirando dois ou três e partilho com ele o gosto por José Cardoso Pires).

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