A minha mãe suplicava ao meu pai: vamos levar os miúdos a passear, hoje é Domingo! O meu pai era um boémio, lia muito, fumava ainda mais, gostava de cafés e de jornais. Nunca o vi pôr o pé na praia, fugia do campo e da natureza. Amava a noite, suportava os dias. Tolerava as crianças e ia gostando sempre mais de nós à medida que crescíamos e podia falar connosco como quase adultos. De quando em quando, ela convencia-o, ele metia-nos no carro e dava uma voltinha pela cidade, janelas abertas, com o braço com o cigarro de fora. Às vezes parávamos e comíamos um gelado (ou melhor, um baleizão). Quando regressávamos a casa ela dizia: lá demos a voltinha dos tristes. Toda a vida a minha mãe quis passear aos Domingos, às vezes quando eu dizia que tinha que trabalhar, ela lamentava-se: mas é Domingo. Nos últimos três anos da vida dela guardei muitos Domingos para almoçar com ela no restaurante como gostava e, por fim, já em casa.
Metade da minha infância foi passada no quintal da minha casa, um terço nessa mesma rua. Creio que consigo contar os passeios pelos dedos da minha mão. O quintal era ainda assim bastante cheio, vinha muita família, às vezes havia festa, não me sentia infeliz. Mas não tinha absolutamente noção de quase nada, muito menos do tamanho que tinha a terra. Quando me comparo com as crianças atuais, acho-as incomparavelmente mais espertas e sábias do que eu era.
Talvez resida, assim, na infância a minha fome de mundo, o que comporta natureza, arte e cultura, podendo usar apenas um termo para todos três: resistência.
Chegada a Primavera essa fome vem à flor da pele. Uso, contudo, o termo Domingo como um apelo metafórico que vem do lamento da minha mãe. Significa que o passeio pode tomar forma num outro dia da semana, até porque inevitavelmente alguns fins de semana são tomados pelo trabalho.
Abram então a porta, venham, é Domingo.
~CC~
Também gosto do domingo, também são gostos que ficaram da infância.
ResponderEliminarQuanto às crianças de hoje serem mais espertas, concordo, mas mais sábias, tenho dúvidas sobre a avaliação do tipo de sapiência em comparação com as crianças do nosso tempo.
Um abraço, bom fim de semana.
Saboreie cada Domingo! Compreendo o que diz, talvez sejam saberes distintos. Mas eu era mesmo muito inocente, depois tive que crescer num ápice, forçada pelas circunstâncias que ditaram abruptamente o fim da infância.
EliminarAs crianças vivem como as deixam viver. Como podem. Em geral são felizes com o que têm e nem pensam nisso. À medida do crescimento e maturidade, o mundo conhecido começa a não bastar. Mas uns projectam e realizam, outros, por mil razões diversas, transformam projectos e realizações e haverá os que deixam que projectem por eles. Em cada homem/mulher subsistem as três modalidades. Somos todos pessoas, não é?
ResponderEliminarBoa semana, CC
Há muitas crianças tristes também Bea, não são todas felizes, nós gostamos de as ver assim, mas não corresponde... Quanto ao resto sim, a diversidade é a regra e a identidade vai-se construindo ao longo da vida. Boa semana!
EliminarEu disse em geral; mas é verdade que talvez haja demasiado particular. No entanto, a CC esteve em África e eu não; e toda a gente me diz que as crianças africanas são alegres, de uma pobreza franciscana (ou mais que ela), mas alegres. Na situação de guerra toda a gente é infeliz. Mas retomo: a capacidade das crianças para serem felizes é maior e mais simples que a dos adultos.
Eliminaro que importa é que o domingar se abre na plenitude ao que ficou na infância e ao que trouxemos de lá
ResponderEliminaraproveitemos esse tempo da melhor maneira que pudermos
Aproveitemos sim, mesmo que o passeio seja curto. Gosto da palavra Domingar😌
EliminarDomingo lá em casa era sagrado, saimos sempre para ir à Missa.
ResponderEliminarEu gostava imenso dos domingos.
Revi-me um pouco neste texto.
Apenas uma ressalva, os miúdos de hoje não penso que sejam mais inteligentes, apenas tem ferramentas que nós não tinhamos.
Sabem e conseguem fazer coisas por exemplo ao nive da informática com muito mais rapidez do que nós, mas, eu posso demorar mais um pouco mas chego lá.
Também me faz muita confusão e não direi todos, mas muito poucos não se interessam em ler um livro. Eu li, tantos, tantos e de uma colecção li todos os da biblioteca da minha aldeia.
Por isso sabem muita coisa que nós não sabemos, mas tambem nós aprendemos tanta coisa que hoje nem sabem o que é.
Boa semana com saúde e energia.
Deixo um beijo
:)
Eu tenho um sobrinho que lê livros à mesma velocidade que eu lia em criança. Os miúdos até gostam de livros, à medida que crescem é que se desinteressam deles... Mas já muitos decretaram a morte do livro e ele subsiste, farei a minha parte para que sibreviva. Um beijinho e venham bons domingos!
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