A chave colocada na fechadura foi o extremo do erro. Um erro persistente uma e outra vez. O botão no terceiro andar em vez de no quarto, não sei se chamar-lhe automatismo ou amor. Habituei-me a pensar que estão nas antípodas um do outro mas se calhar não é assim tanto. A dor da sua ausência amorteceu, é agora ténue, diluída, levou a patine do tempo. Mas a mão continua a dirigir-se ao botão do terceiro andar, ao lugar da casa dela. Noutras ruas deixei de passar há mais tempo, circundo-as como se nada tivessem dentro, como se fossem um buraco que o tempo tapou com a sua areia de esquecimento, já há muito não estremecem à minha chegada, nem à minha partida. Aqui já não choro mais, já chorei tudo o que perdi, mas ainda me falta rir, é como se o riso estivesse ainda preso dentro de mim.
Este Sul tem um cheiro único e reconheço-o, é parte integrante do meu passado, renegar lugares é renegar parte de nós. Aqui a água varreu também tudo, mas não deixou cheiro a bolor e a mofo, há um leve perfume de que mais adiante irá acontecer Primavera, gelados, mar suave e quente.
E é por isso que volto, pela possibilidade de, a cada vinda, me tornar mais leve.
~CC~
Se os lugares nos existiram habitados por quem nos falta, nunca mais serão os mesmos, são outros. Mas os automatismos amorosos não se perdem com facilidade, virão do inconsciente que desconhece barreiras e sabe o que quer. Leveza é sensação que só o mar me traz, alguma coisa existe entre mergulhos e calor solar que torna mais leve a mágoa, parêntesis que elide o quotidiano.
ResponderEliminarMas ter memórias é já uma sorte. São vida.
Bom Dia, CC
O mar, quando manso, também me traz leveza e até alegria. O inconsciente manda muito, muito embora haja agora alguns cientistas que vieram contestar a sua existência. Bom domingo Bea!
EliminarHabituamo-nos a tudo, até às ausências, mas com algumas recaídas.
ResponderEliminarUm abraço.
Não recair na dor é o mais importante. Um abraço
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