Diz ele que há vinte anos não pisava aquela cidade. Então eu estava lá quando ele a pisou, comprei-lhe um livro e ele assinou-o, é coisa que não costumo fazer, as longas filas, a falta de jeito para dizer alguma coisa, aquela proximidade ao escritor...costumo desistir. Mas lembro-me da minha irmã mais nova a insistir, a brincar com aquela minha insegurança...a empurrar-me devagarinho, vai lá, vai lá...
Na verdade, uns anos antes ele já tinha estado na minha escola, eu estava lá há pouco tempo ainda mas tínhamos feito algo que ele adorou: retirámos frases do primeiro livro dele e distribuímos aos estudantes que a partir delas construíram micro histórias, dois ou três dispuseram-se a ler naquela sessão pública. Ele emocionou-se.
O José Luís Peixoto, vinte anos antes era muito bonito, assim o achava eu, tinha uns olhos cheios de luz, um cabelo meio encaracolado e um sorriso tímido. Talvez a fama o tenha levado aos piercings, às viagens, às biografias de homenagem, talvez se tenha perdido um pouco, mas até isso lhe dá graça, não tem um caminho linear, nem se deixa enredar no estilo único. Vinte anos depois... li alguns dos livros, não todos, gostei mais de uns e menos de outros. Já não corro a comprar-lhe os livros, nem o coração estremece por estar perto dele. Mas continuo a gostar da sua sinceridade, da forma como se apresenta sem pudor nem vedetismos, continuo a encontrar-lhe a ternura, isso que tanto me encanta num homem. A melhor parte: a forma como ama a sua família e o seu Alentejo, como quer estar nesse colo ao mesmo tempo o larga para procurar outros lugares. Mais velho, menos bonito, mas mais velho, mais bonito. Talvez ainda compre a Montanha.
Absolutamente rendida às conversas com a sua mãe. Que maravilha a menina Alzira
~CC~
No escritório do pai do Diogo, o autor do Manifesto Anti-Peixoto, encontrei um livro de poemas de JOSÉ LUÍS PEIXOTO "Gaveta de Papéis", poesia para ler no avião ou no combóio, a caminho de São Francisco, Abidjan ou Madrid. Não conheço o resto da sua obra literária, provavelmente influenciada pelo Diogo.
ResponderEliminarAbsolutamente rendida à sua escrita, CCF, de uma sensibilidade única.
Perdissima estou...não sei quem é o pai do Diogo...e lembro vagamente qualquer coisa como um manifesto anti Peixoto...ou pelo menos que despertava tantos ódios como paixões...depois encontrei o seu post...de 2013?! Achei graça a esses poemas que desconhecia, ele tem outros livros de poesia sim (a criança entre ruínas, uma casa na escuridão...). Obrigada Teresa pelo incentivo.
EliminarE os poetas fresquinhos? Também merecem ser lidos. :)
ResponderEliminarDiogo, acredito que seja coincidência...e que a Teresa não tenha encontrado o livro no escritório do seu pai:). Bem sei que é muito difícil um poeta afirmar-se e admiro a sua ousadia e coragem...eu tenho alguns livros de jovens poetas, gosto, por exemplo, da Cláudia R. Sampaio...mas já não sei onde hei-de colocar mais livros, tenho que resistir um bocadinho. Mas a poesia vende-se pouco, é verdade.Se gosta de escrever continue, continue sempre.
EliminarJá fui interessado em José Luís Peixoto no início da sua carreira.
ResponderEliminarUm abraço.
Não é fácil...ou escrevem sempre do mesmo modo, ao estilo Lobo Antunes, o que gera no leitor algum cansaço mas são reconhecidos pela sua singularidade...ou mudam e deambulam e são por tal criticados, ainda mais se começam a fazer tatuagens, piercings e vão passear para a Coreia do Norte ou entrevistar o dono da Delta. Eu, como sou insubordinada, faria sempre o que me apetecesse:)...e este livro é sobre o Cancro, com base em testemunhos que recolheu no IPO.
EliminarO livro sobre o dono da Delta... foi o pior passo.
ResponderEliminarTalvez um tributo a um alentejano...muito estimado naquela zona. Mas da qualidade não posso falar, não o li. Mas parece-me pior a designação "dentro do segredo" a um livro sobre a Coreia do Norte, parece-me um "marketing" desnecessário. Mas esse também não li. Acho que o último que li foi o "Livro" ou o "Cemitério de Pianos" e desses gostei.
EliminarTalvez devesse ler o "Dentro do Segredo", há ali uma desmontagem notável.
EliminarSério?! Fiquei curiosa. Mas do título é que não gosto.
EliminarA Biblioteca Central de Düsseldorf tem um único livro de José Luís Peixoto na secção da literatura portuguesa: “Cemitério de Pianos” que nunca me apeteceu ler. Na próxima semana vou requisitá-lo. Esta sua publicação animou-me.
EliminarOlha que bom! Depois diga o que achou...e se não gostar, deixe a meio...é um direito do leitor.
EliminarGosto muito do José Luís Peixoto, sou fã incondicional desde o primeiro livro que salvo erro foi o Morreste-me.
ResponderEliminarComprei quase todos os livros dele.
Ultimamente já não o sigo tanto, mas gosto muito do seu trabalho seja em poesia ou em prosa.
Um beijo
:)
Sim, foi esse, belíssimo início. E "Galveias" é maravilhoso. Vão aparecendo novas coisas e reeditadas outras, é difícil acompanhar tudo...mas continuo a apreciá-lo como ser humano. Um beijo e obrigada por vir dar a sua opinião!
EliminarSão engraçadas e ternas as conversas com a menina Alzira:). Mas há programas que prefiro e só as oiço de tempos a tempos. Pouco me interessa o aspecto físico do escritor. Não o conhecia há vinte anos e continuo a desconhecê-lo. Também fiz uma abordagem à sua escrita numa semana da leitura e aquilo de que os alunos mais gostaram foi dos piercings e de saberem que é alentejano.
ResponderEliminarNo resto, e pelo que já vi dele em entrevistas que andam pela net, parece-me uma pessoa simples, um alentejano de que me orgulho. Também gosto da maioria dos seus livros. Parece-me uma pessoa terna e inquieta, mas é como disse, não o conheço, nunca nos encontrámos senão nos livros.
Boa noite, CC
Bom, claro que não leio os escritores por serem bonitos ou feios...sejam homens ou mulheres, mas sou capaz de apreciar a beleza masculina ou feminina, embora talvez não pelos cânones...mais habituais. Tem que haver qualquer coisa que vem de dentro a alimentar a beleza que se vê de fora. Atualmente ele já quase não tem piercings, tatuagens não sei porque inverno não as deixa ver. Eu gosto de ouvir os escritores, sobretudo quando fazem leitura dos seus livros, mas não de ser intrusiva ou de chegar muito perto. Mas a maior parte já não estão vivos e nunca os vi e na mesma os leio e os aprecio( ou não). Boa noite Bea.
EliminarCuriosamente, os escritores que ouvi a ler trechos seus, pareceram-me quase sempre piores que outras leituras que também ouvi deles (feitas por leitores).
EliminarDos escritores que gosto mais (mas tem de ser muito) e estão vivos, tenho autógrafos e fico na fila parvamente. Não sou de meter conversa excepto se me interpelam, por norma entro muda e saio calada, nem sequer gosto de dizer o nome e inda não percebi por que razão não assinam apenas o nome deles, é o que me interessa; além disso, as dedicatórias, em geral, são uma bodega, tudo igual para todos, coisa que nunca me serviu. Mas é verdade que das sete ou oito que possuo, duas são lindas de morrer. Mas essas exigem tempo e alguma conversa com o leitor. E, claro, um tempo mais largo na fila. Nelas há um respeito pelo leitor que me comove pelo alheamento que fazem do tempo e não é propriamente usual em sessões de autógrafos. Mas já me deixei de autógrafos, tudo tem o seu timing.
Também tenho algumas dedicatórias bonitas! Gosto de ouvir a voz deles mesmo quando não são os melhores leitores da sua própria obra, é como se os ouvisse a escrever. Bom fds Bea e boas leituras
Eliminar"Tem que haver qualquer coisa que vem de dentro a alimentar a beleza que se vê de fora". Lapidar CC.
ResponderEliminarQuando há cerca de dez anos comecei a selecionar e comprar livros para me entreter na reforma, adquiri Nenhum Olhar, Cemitério de Pianos e Livro. Falta-me ler o último.
Não vou a sessões de autógrafos, excepto uma do Saramago na feira do livro de Lisboa, porque calhou naquele dia e a fila estava pequena.
Hoje não há música?
Pois é Joaquim, ainda bem que me compreende, a beleza que não é assim merece-nos um olhar mas depressa a esquecemos...mas há outra beleza que nos comove e essa fica-nos. Hoje demorei mais um bocadinho a pôr a musica a tocar...
EliminarA célebre frase que se tornou recorrente na literatura e na filosofia "A beleza está nos olhos de quem vê" é atribuída ao poeta e político espanhol Ramón de Campoamor (1817-1901). A máxima popularizada sugere que a beleza é subjetiva e depende da percepção individual, portanto de uma interpretação pessoal de quem observa e tornou-se recorrente na literatura e filosofia.
ResponderEliminarAssim como o conhecimento provém de várias fontes, sendo as principais a experiência sensível (sentidos) e a razão (pensamento), a CC, e a meu ver bem, colocou também a tónica no objeto em si e deste modo deixou-me muito mais descansado quando vou a uma exposição de pintura e gosto de certos quadros e de outros não.
Bom domingo.
Está mesmo nos olhos de quem vê...embora se reconheçam padrões e cânones que nos influenciam o olhar. Bom domingo
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