Há nove anos fazia uma malinha para a cirurgia, supostamente a dita duraria 8 horas e a minha estadia 3 ou 4 dias. Mas foi mais, muito mais, é o que acontece quando as coisas correm mal. Antes já tinha perdido a cor e o cabelo e trazia sempre comigo aquele odor a quimioterapia e o cheiro apurado que nos torna permanentemente enjoados. Mas ainda não era um farrapo humano, só um mês depois.
Não obstante a data não me merecer grande atenção, é mais uma fortemente canibalizada pelo comércio, não somos imunes, nunca somos. De tal modo que, pelo facto da cirurgia ter acontecido no dia dos namorados, fez com que nunca mais me esquecesse da data. Não consigo assim localizar nesse dia outro amor que não seja o de uma mão que se agarrava à minha e o da família que esperou horas a fio por notícias que não chegavam e depois debandou certa que tudo tinha corrido bem. Aparentemente sim, só depois descambou.
A minha filha dormiu comigo naquela noite, já no hospital. Quando penso nela naquela altura, é ainda numa adolescente, apesar dela já não o ser. Tinha ainda aquela inocência de estudante de medicina, parecia inabalável a sua perspectiva de que tudo seria simples e positivo.
A força que encontramos para lutar pela vida só a sabe quem está perto da morte e não é ainda tempo de morrer. Só mais tarde, muto mais tarde nos tornamos fracos, quando já nos autorizamos a chorar.
~CC~
é bom lutar pela vida, assim fala quem já teve dois "cartões amarelos"
ResponderEliminarbom fds
Dê luta 👏. Bom fds
EliminarBrutal experiência. Eu tive mãe e irmã.
ResponderEliminarNunca se vence, âs vezes perde-se e na maior parte das vezes a luta continua. Um abraço
EliminarEssa doença, como algumas outras, é um calvário que se sobe com a cruz de carregá-la. Mas não somos todos iguais: minha mãe acordou da anestesia a chorar copiosamente e sempre afirmou nunca ter chorado tanto como daquela vez. Meu irmão nega-se peremptório a mãos amigas por perto além das de mulher e filhos; um tio de que muito gosto - o amor não se acaba por morte -, se chorou, foi longe de outrem.
ResponderEliminarÉ data a celebrar, CC. O amor à vida, o facto de ter sobrevivido e a possibilidade de uma "vida normal", de certeza vivida por si com muito mais saber e sabor, merecem celebração.
Parabéns!
Sim, dia de comemorar! Um abraço Bea e muita força para si e para o mano.
EliminarQuem passa pelo que a CC passou, nasce-lhe, creio, uma alma renovada.
ResponderEliminarO seu olhar em redor, descobre deslumbramentos, antes desconhecidos.
E talvez perpasse uma falsa sensação de fortaleza (falo por mim) que convém reprimir.
Vai uma tacinha de champanhe...?
Vai sim, pequenina:)
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