Estrada do Sol
Um trio de excelência: duas cantoras e um compositor, é descobrir.
~CC~
Estrada do Sol
Um trio de excelência: duas cantoras e um compositor, é descobrir.
~CC~
Entre a luz e a negritude caminhei neste ano que finda. Recuso colocar estas luzes e cores na balança, até porque nenhuma tem peso, às vezes a luz inicia o dia e a noite traz a negritude, mas também pode acontecer o contrário.
Os dias com luz trouxeram de volta a música, descoberta ou redescoberta a cada Domingo. Trouxeram a leitura e as suas formas de partilha, primeiro com o clube de leitura que criei com os estudantes e que, por ser premiado, abriu horizontes. Depois o outro, da livraria mais bonita da cidade, uma entrada difícil num grupo já formado e muito intelectual, um pouco excessivo para meu gosto que não sou dada a pedantismos, nem a lições de cátedra. Mas pouco a pouco tem melhorado, já podemos rir e dizer que não gostamos, mesmo que o livro seja de um prémio Nobel. Menos cinema do que é habitual, mais teatro. Alguns festivais e festas, nenhum festival de música de renome, bani-os da agenda. Novos roteiros culturais noutros lugares, quase todos no município de Montemor o Novo, talvez um sinal, gostava que fosse. A luz rodeou também os amigos que regressaram de um lugar tão antigo como marcante chamado adolescência. Tinha-os lá deixado por renúncia, despeito e revolta. E fui lá buscá-los com apaziguamento e ternura. Outras teias, sobretudo as criadas no mundo profissional, não consegui manter ativas, julguei-os para ficar, mas eram mais frágeis do que supunha, não resistiram ao descruzar dos caminhos. Algumas ligações permanecem suspensas, estão entre o que pode avançar e manter-se e o que pode morrer, tudo o que não se rega acaba por secar.
O trabalho foi pesado, tão bom em recompensas frutuosas e missões concretizadas, quanto alvo de tensões, conflitos e afastamentos, umas que consegui entender e outras que são da ordem do irracional, dos ódios pequeninos que desfazem em pedaços organizações que tudo tinham para serem exemplares.
Nos dias e momentos mais negros tive sobretudo medo do meu corpo sucumbir novamente e de não haver ninguém suficientemente próximo ao meu lado, capaz de me ajudar e apoiar, cavou aí a ansiedade o seu buraco. Dias houve em que também temi por este mundo e por este país, pela agressividade com que uma direita conservadora e xenófoba traça o seu caminho ascendente.
Nos dias mais luminosos senti-me intensamente grata pela vida, tocada pela beleza das pessoas, emocionada por ter uma filha tão especial, nutrida por novos projectos e novos lugares, ao mesmo tempo que amava os que já sinto como meus e são raiz e poiso. Deixei que a saudade me habitasse sem dor excessiva, reconhecendo que a perda de pessoas que amamos abre um lugar que fica para sempre. Talvez tenha querido, por vezes, apaixonar-me, mas não aconteceu verdadeiramente, terrenos movediços afastam-me, preciso de reconhecer que o chão que piso é seguro para poder caminhar, aceitei-o sem drama. Creio que em nós o desejo do amor nunca morre, mas pode-se viver apenas com ele. Fui por vezes tão leve que achei poder voar e outras tão pesada que achei que não conseguia erguer-me.
Esta é a minha rua e gostei quando por aqui vieram passear e deixaram a marca do vosso sapato ou do vosso pé nu, agradeço-vos a companhia e acredito que a escrita pode ser um lugar de encontro.
~CC~
Embora tardiamente, dada a minha infância lá nas terras ocres e quentes, gradualmente fui conquistada pelo bacalhau com todos, creio que só mesmo na idade adulta lhe ganhei o gosto. Não o comer assim na sua simplicidade maior, sempre nos pareceu estranho, fora de época nem o pensamento por lá pára, mas na noite de vinte e quatro, parece ganhar brilho e sabor.
Este é talvez o ano da primeira viragem, o primeiro dos primeiros em que não estaremos da casa de alguém dos filhos da matriarca ou numa casa por todos alugada, mas sim na dos seus netos. E em que saltaremos de uma casa para a outra, repartindo tarefas e afazeres. A alteração do bacalhau com todos para o bacalhau com natas e/ou com coentros, cozinhado e encomendado fora, é uma mudança geracional. Olho para ela agora como nunca pensei fazê-lo, sem resistência ou desconforto. E se me mantenho ao leme do dia seguinte, cozinhando algo que também já é uma mistura entre a tradição e a pura invenção, é apenas por saber que a minha filha não o pode fazer, de boa vontade lhe passaria o avental, ou a ele. Gosto do bocadinho de novidade que cada coisa traz e parece-me impossível repetir todos os anos o mesmo, tal qual, sem nada de diferente. Este ano também não haverá filme da tarde no dia 25, a casa não tem televisão, nem Internet, esta é também uma mudança geracional, talvez inversa da primeira, talvez sejam assim as gerações futuras, mais diversas nos estilos de vida que querem adoptar. Espero, ainda assim, que não se percam nessas diferenças, que nunca deixem de se ver e de se gostar.
A única virtualidade desta história que nos contam para ser Natal é ela ter lá dentro amor, resistência e magia, ou seja, a ser provavelmente tudo inventado, não é uma má invenção.
Aproveitem o melhor que puderem e se não puderem ou não conseguirem, saltem directamente para o dia 26, pessoas livres também saltam dias no calendário.
~CC~
É o meu reduto, a salvação da minha voz, o lugar onde o meu corpo vai buscar a água que não lhe dou. Depois da doença, beber água tornou-se muito difícil, nunca mais voltei a bebê-la como antes, a ciência explica isso muito bem em função dos complexos mecanismos em Y que me deixaram cá dentro. É preciso que a água tenha densidade. Descobri as flores roxas pelos mecanismos poéticos que envolvem a minha relação com o mundo: eram lindas. Depois veio a linguagem, o nome perpétua é simultaneamente estranho e antigo, sou atraída por essas coisas. Só depois chegaram as propriedades, a salvação da voz, a ajuda nas gripes. Um contra: não sabe a literalmente nada. Bebo-o todo o Inverno, combina infinitamente bem com o Natal.
E este Verão aconteceu-me uma coisa muito bonita, coisas que só acontecem lá nas montanhas mágicas. Encontrei por acaso um engenheiro agrícola que tinha estufas e estufas de plantas de todos os tipos, diziam que aceitava mostrá-las. Contudo, chegamos quase ao final da tarde e já não estava ninguém, mesmo assim ele acedeu a mostrar-nos tudo, demorámos muito, muito tempo, tinha um saber profundo sobre cada aromática e cada chá. E tinha notado o meu entusiamo pelos saquinhos de perpétuas roxas logo ao início, quando passámos na loja.
E então mostrou o que nunca pensei ver, infinitas manchas de florinhas todas roxas, magníficas. Depois que também havia perpétuas de outras cores, mas percebeu que para mim essas pouco significado tinham. Pedi se podia fotografar. A minha ideia não era propriamente a de me fotografar a mim no meio delas, apenas trazer aquela mancha florida comigo. Só que ele quis fotografar-me ao lado, no meio delas, eu própria agachada, feita também perpétua. Chamei também a minha irmã. Estamos divertidas, engraçadas, deslumbradas. Um ser humano tão autêntico, tão generoso e um cultivador do meu chá preferido. Saí de lá a cantarolar a canção do Sérgio Godinho: é que hoje fiz um amigo...Mas sei, sei muito bem que não posso andar a plantar amigos sem, na verdade, ter água com que regar.
Mas ficou o lugar no mapa e eu gosto de voltar aos lugares que marcam o meu coração.
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"Já não tenho esse tempo, já nem sei como se faz..."
(esta Luísa Sobral gosta tanto de me roubar as palavras)
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Fui atrás de um pátio onde se falava de livros.
Descobri muito mais. Não se admirarão se vos disser que o Alentejo é o que de Portugal tem de mais parecido com Angola, a terra em que nasci. Bem sei, tão diferente. Mas é o horizonte largo, a vista inteira do céu, as estradas que parecem não acabar, a sensação de liberdade. Por isso é talvez o território para onde sempre quis ir, quando se escolhe a morada, aquele lugar que não achámos, não temos. Se, contudo, for muito interior, irá faltar-lhe o barulho do mar e secarei com a falta de água salgada. Se ficar muito no litoral, será inevitável que se oiça mais Inglês do que Português, perderá o encanto.
Há no Alentejo lugares muito bonitos, quase museus vivos. Cabrela não é nada disso, não tem casas caiadas com barras da mesma cor, não tem largos abertos e ruas cheias de laranjeiras amargas, não tem sequer um aspecto coeso e uniforme, tem palacetes e casas minúsculas. Apenas a Igreja é imponente. E tem o mural das letras, coisa recente e inventada para colocar uma vila no mapa trazendo escritores famosos. Não tem grande mal, faz acontecer, mesmo que venham mais pessoas de fora da vila, do que de dentro. Gosto de lugares imperfeitos e este é.
O que não esperava encontrar em Cabrela era a minha mãe. Pois, as filhoses de Cabrela são as mais parecidas que encontrei às da minha mãe, não no formato, mas sim no sabor. Não sei como, ela era Algarvia. São as maravilhas que a vida nos traz. Estou em Cabrela com as filhoses da minha mãe e os livros do meu pai. E se eles eram um casal improvável.
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Aproveitando os anos que estive sem lhes tocar, olhando-os com a estranheza de quem chupou muitas mangas lá na infância tropical e de quem não domina se são mesmo uma fruta. As mercearias das redondezas estão cheias deles, mas já vão dando sinal de que irão desaparecer. Incapaz de os roer, tão pouco de os descascar, se a variedade fosse mole, dada a polpa escorregadia e inconsistente. Definitivamente não compreendia o meu amigo da adolescência que tanto os amava e me recomendava comê-los à colher com canela.
Até um dia, como aquele em que reparamos em alguém que sempre lá esteve, mas nunca vimos realmente. Foi no meu curso de culinária vegetariana, em que julguei converter-me, nem que fosse apenas parcialmente, que a paixão irrompeu. Era uma mousse laranjinha, com amêndoas torradas laminadas. Vi-a fazer e acompanhei com algum desinteresse, de quem considera que é um desperdício torrar amêndoas para as colocar à superfície de tal coisa. E provei a medo. Mas colher a colher maravilhei-me.
E agora não há Outono-Inverno em que não repita a receita, aproveitando o que a época nos oferece, produto sazonal que ainda não se congela nem se armazena. E isso ainda me sabe melhor, saber que é só agora que o tenho e depois desaparece na sua volatilidade, aceitando como tal.
Um dia talvez saibamos voltar a comer assim, cada coisa combinada com a sua exacta temporalidade. Quando acabar Dezembro, estou certa que não comerei mais dióspiros.
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Vê lá o que fazes, há tanto a fazer.
(Esta frase podia resumir a minha vida inteira, a inquietação.
Mas sei muito bem que juntos é que iremos um pouco mais longe)
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Diga que você me adora. E que eu não presto.
São assim as contradições do fim do amor. Verdades cruas. Ainda assim diga que você me adora.
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Nota: há ruído sim, parece uma gravação amadora feita num espectáculo ao vivo, oiçam mais do que uma vez.
Essa maldita morte que vem buscar gente boa que nos faz falta. Nem sequer era meu amigo mas amigo de amigos meus. E ainda assim cobriu-me uma noite escura, uma sombra interior, um medo tão grande cá dentro. Talvez precise apenas de chorar.
Ou então é saber que aquilo que o levou tão perto esteve de me levar. E dizem que não raro volta. Os fantasmas nunca nos largam e já não são iguais aos que eu inventava na minha infância, tinha um como amigo secreto que só eu via e me protegia, agora são vários e vestem capa negra.
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O sabor de uma coisa é parcialmente desfeito quando uma parte de nós já tem que estar na coisa seguinte.
Damos por nós a pensar que já a podemos riscar da lista e, ao fazê-lo, entendemos que já estamos na noutra e na outra e na seguinte. E há erros porque a velocidade é muita. E o corpo dói.
E sabemos tão bem que a vida não é para ser vivida em curto circuito, em emboscada, em apneia. Sabemos e não conseguimos, são fortes as correntes e arrastam tanto.
Valem as paragens, em cada uma delas abro bem a boca para sorver o oxigénio e continuar a respirar com alguma convicção e encanto.
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O que gosto em ti é essa vitalidade, essa forma de comer o mundo e saboreá-lo, e mais do que isso, é como conseguiste manter essa alegria com tanto negrume que o mundo traz hoje. Estás sempre em movimento como se fosses vento e sei que já nem disso precisas, o teu brilho já foi apreciado. Quando te oiço a voz há nela a frescura de quem nunca envelheceu, de quem engoliu dores e triturou-as algures no coração, transformando-as em bandeiras e balões.
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Sebastião da Gama ficava feliz quando sentia que a aula tinha sido boa e ele uma parte dessa obra. Acho que grande parte do que ele diz é de uma total actualidade. Sinto que a felicidade dele ocorre não apenas pelos alunos se demonstrarem capazes de aprender mas também seres capazes de bondade. Esta segunda parte é cada vez mais omissa, tenho sentido que os grupos são cada vez mais desavindos e competitivos, sem cola que os una.
Quando ontem lhes disse que tínhamos que negociar pois tinha seis locais para o desenvolvimento dos Projectos e muito provavelmente quereriam os mesmos, sabia o que me recomendariam. E assim foi: tirar à sorte. Recusei porque não podemos ceder à sorte a capacidade humana de ouvir, analisar e negociar. E foi difícil, não fora o frio, teria suado. Fiz recuos estratégicos para evitar obrigá-los ao que não queriam colocando outras e outras hipóteses. Por fim, aceitei que um dos lugares não lhes interessava mesmo. Iria tentar duas vagas no mesmo local. De repente um grupo disse que queria ir. Indaguei da razão do recuo. A resposta foi surpreendente: não queremos que fique triste. Que gentileza. Disse que não ficaria, que aceitava. Respondeu outro de outro grupo: queríamos ver como é que a professora negociava, se era capaz, se não nos obrigava. Dei uma gargalhada. Fiquei contente como o Sebastião ficava, tinha ali seres humanos.
Ninguém nunca me irá avaliar por isto, pelo suor da palavra, da negociação e do encontro. A avaliação incidirá em quantos artigos publiquei e se foram ou não em revistas internacionais, mais métrica, menos métrica, algo quo que para os estudantes não tem, nem nunca terá grande efeito. E é por isto que hoje abandonaria a carreira ou nem sequer a começaria, porque a essência está adulterada e perdida.
Se calhar é mesmo melhor um tutor digital para cada aluno. Nesse mundo já não estarei.
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Vou ver se tenho um raminho de Oliveira na caixa do correio. Ou então deixar eu um. Afinal há sempre alguém que nos magoou ou alguém a quem magoámos, é parte do caminho.
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No último andar a chuva e a trovoada têm apenas um tecto a separar-nos do céu. Enquanto invocamos a sua resistência, o trovão estremece cada janela e o relâmpago acede a luz não pedida. A chuva parece agora mais forte do que foi noutros Outonos, tal como o calor foi mais intenso este Verão.
Enquanto oiço as percepções vindas do meu coração, a minha cabeça pede os dados da Ciência. Ambos talvez possam provar que a terra está a ceder, está cansada da humanidade. Cansada como eu vim da reunião de ontem em que os seres humanos ali presentes também me pareceram à beira do abismo, capazes de dizer coisas sobre crianças e jovens como há muito eu não ouvia. Por este andar quererão um policia em cada sala de aula. Esta trovoada, vinda das pessoas, também agora espalhada em cartazes xenófobos, abala-me ainda mais do que a da madrugada.
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Faço um exercício habitual que me ajuda a viver: ver, naquilo que é mau, algo de bom.
Mas hoje não resulta, a tua partida foi só má. Para ti pode ter sido o fim do sofrimento, é o que se costuma dizer para consolo. Mas para mim foi só sofrimento, nada trouxe de bom. Sinto a tua falta. Também nos dizem que nos iremos encontrar algures no Universo, mas não acredito. Para mim tu és só a poeira, fragmentos que se espalharam, nunca mais nos iremos ver. Só vives na memória dos que te amaram e eu fui uma delas. E não foi um amor fácil, houve momentos de encontro, de desencontro, de maior proximidade e de maior distância. Mas nunca nos perdemos, nunca duvidámos que gostávamos uma da outra.
Lembro esta subida ao castelo como um dia iluminado, nós duas já depois da doença, a viver a esperança da vida. A almoçar só as duas naquele pequeno restaurante que não conhecias e que tanto apreciaste. A tua lucidez, argúcia, tanta ternura.
E às vezes gostavas desta data, outras não te apetecia. Que bênção para mim teres nascido e eu não te ter deixado passar por mim sem te agarrar. O culto da amizade tem sido o meu verdadeiro culto.
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Gosto de pensar que conheço a Avenida da qual ele fala. Não serei Júlia, nem Julieta, tão pouco Helena, mas já me cruzei com ele pela cidade.
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A conexão com a natureza é o centro ao qual volto, volto sempre.
E levo-os comigo, semente que quero deixar-lhes.
Ontem, porém, a miúda disse:
- Professora, mas isto está tudo sujo.
Olhei em volta e só vi lama, muitas folhas caídas e imensos paus, resultado da tempestade de quarta feira.
- Onde vê sujo?! E ela apontou a lama, as folhas e os paus.
- Mas é apenas a beleza do Outono, respondi.
Foi isto que lhes fizemos, nós os adultos que os deixámos ficar nos quartos entregues aos seus écrans.
~CC~
É possível pensar em alguém quase exclusivamente em função do sorriso e nascer aí, nesse centro de gravidade, uma pontinha de saudade, algo que emerge do entardecer para nos comover?
E depois passou porque o tempo não deixa, porque não é o tempo.
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Dançar e cair.
Duas belas aprendizagens de vida.
Sobre a primeira, sempre muita vergonha e quase incapacidade de atinar com um par, mas bambolear a solo como essas mulheres do vídeo, sempre adorei.
Saber cair, de certo sim, muito bem. Esta semana dei um belo tombo e só tenho uma esfoladela no joelho. Outros de uma outra natureza também e cá estou, pronta para beber o sol de Outono.
Fugiu-me Outubro à velocidade que a areia me cai entre as mãos se as abrir. Fugiu-me Outubro como se todo um mês tivesse sido vivido naquela velocidade dos banhos matinais. Fugiu-me Outubro enquanto tentava prolongar os dias e adiar a hora das noites. Fugiu-me Outubro nos sonos inconstantes entre o sofá e a cama, sonâmbula entre ser demasiado cedo para acordar e demasiado cedo para dormir. Fugiu-me Outubro enquanto tentava acabar sem conseguir o livro do Clube de Leitura. Até os espectáculos a que assisti não perduraram na memória, tão cheia de pressas que ela andou.
Apenas ficou Outubro no dia em que a chorei, em certas manhã de domingo em que ouvi música, em certos dias em que consegui pisar as folhas amarelas e reunir paus com que desenhei ninhos para aves ainda inexistentes.
~CC~
Parcerias boas, gosto quando os músicos se juntam e se misturam. Mas eu sou das misturas, tenho receio das identidades puras, Amin Maalouf explicou isso muito bem.
~CC~
Por certo te lembras que eu, apesar de ser tão tímida, vestia roxo nos anos 80. Achava-a uma cor densa, grave, quase sagrada. E quase ninguém a usava, estava proibida nos circuitos da moda, era anacrónica.
Vejo-o agora irromper como uma cor possível, integrando algumas colecções, embora predominem ainda mais novas paletas de cores com nomes inusitados e estrangeirados para denominar variantes entre o castanho e a cor de vinho.
E apeteceu-me comprar um vestido roxo, certa de que hoje não o usaria do mesmo modo, não o combinaria com recolhimento e melancolia mas sim com irreverência e seria capaz de sorrir com ele e dentro dele. Descobri também que o nome em Inglês é muito mais leve e belo do que em Português, combinando com a forma como sinto agora essa cor ou, quem sabe, a própria vida.
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Nas aulas, o professor tratava as meninas por princesas e por queridas e os rapazes pelo nome próprio.
Dirão, e posso talvez confirmá-lo, que não o faria por mal, quem sabe para exprimir carinho e protecção. Embora não advogue um superlativo controlo da linguagem e muito menos a censura, sei que a linguagem também é uma representação do mundo e ao mesmo tempo algo que o reproduz e o constrói.
~CC~
Os hábitos dos mais próximos conheci-os bem, eram também os meus,
Mas em conversa com amigo recente, ele contou-me como os seus sábados de manhã eram passados a ler o jornal grande no café, numa rotina imprescindível e amada. Foram anos e anos a fio, era comum ver os cafés cheios de gente a ler jornais. Como acabou? Há quanto tempo? Porquê? Foi o jornal que se tornou desinteressante, o nosso tempo de leitura que se afogou nos mil e um afazeres ou o dinheiro que foi minguando?
Partilhámos o mesmo processo, primeiro tornou-se semana sim, semana não, depois cada vez mais não, até que desapareceu. Como é que alguma coisa que tanto gostámos e valorizámos se torna dispensável? Ele diz que ainda passou pela fase digital, eu nem sequer isso.
Finalmente, depois de alguma subjugação às mil e uma leituras possíveis num telemóvel, acompanhada de um tempo cada vez menor na esplanada, substituí o jornal pelo livro do mês. Tem sido bom voltar a ler com dedos no papel e cheiro de café.
Não posso mais perder-me de mim.
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Nunca fui uma fã de televisão, talvez por ter passado a minha infância sem ela, a adolescência também não me agarrou, tão ocupada que estava a explorar um mundo que pouco a pouco ia conseguindo alargar. Tão grande que era...
Passei incólume pela febre das séries e pelas plataformas pagas a que quase todos aderiram, nunca tive nenhuma. Quando a minha filha era adolescente víamos os episódios de Anatomia de Grey na data e hora a que passavam no canal, portanto apenas um. Recordo mais os nossos pés encaixadinhos do que qualquer episódio. Achei graça sem me deslumbrar à Casa de Papel e não fiquei ansiosamente à espera da nova temporada, nem senti necessidade de ficar madrugada fora a ver como acabava o conto de fadas moderno, uma espécie de Robim dos Bosques reinventado. A melhor série que vi até me deixar encantar foi sem dúvida The Handmaid's Tale, essa distopia sombria que parecia tão irreal quanto agora parece um assombro do que podemos vir a ter, era arrepiante e magnífica, ainda assim, talvez pela carga cinzenta, não conseguia ver mais do que dois episódios.
Mas não digas nunca. Pois é. Vi os quatro episódios últimos dos oito de Normal People de uma vez. Gostava, contudo, que não caíssem na tentação de fazer com que aqueles jovens cresçam. Quero guardá-los assim nessa sua normalidade anormal, próxima do que todos somos. Foi esse o encantamento, é que sou eu e não sou, és tu e não és, são eles e não são, há um bocado de todos nós ali. É brilhante como cada um é desadequado à vez em função do contexto em que se situa, como cada um à vez se sente inferior ao outro e por motivos bem diferentes, como cada um magoa e se deixa magoar. E a representação é tão boa que não acredito que sejam actores, são dois miúdos que foram por certo buscar à vida real. Já passou quase um mês que vi e ainda não esqueci, apesar da vertigem da vida que vivo.
Ora aí está, por vezes há calorzinho no sofá e brilho na televisão. Ou então estou a envelhecer.
~CC~
Olha só como a noite vem agora mais depressa, ainda assim tem chegado doce, em crepúsculos alaranjados e secos.
Permitiu-me um último banho de água em terras ainda banhadas pelo sol e brindes com sangria de champanhe, dotes desconhecidos da filha, nunca sabemos verdadeiramente tudo sobre eles, e o contrário também é verdadeiro.
Os retratos de família actualizam os laços que a dispersão geográfica torna difíceis e só a doses cada vez maiores de persistência permitem os momentos de partilha dentro dos anos que passam.
Entre duas palmeiras houve festa, depois saímos de rompante para o dever cívico, concluímos que já todos os que ali estavam podiam votar, um deles pela primeira vez. É quase só o que nos resta, esse voto na e pela Democracia.
Que a noite chegue mais cedo mas jamais nos engula.
~CC~
O dia está cinzento e isso diz quase tudo sobre as sombras que caminham dentro de mim na memória do dia em que te despediste, faz agora dois anos. Sei bem que tinha chegado a hora, que querias ir, tanto quanto eu o desejarei quando o meu espaço de vida for uma cama. Queria, contudo, que tivesses sofrido menos e também que eu própria tivesse sofrido menos. A solidão que vivi nos teus últimos anos, um buraco que se foi cavando no interior de uma rede de proximidade que se esvaziava e se distanciava, é talvez o que mais me marcou.
Ainda assim esforço-me por te recordar alegre como te vi em certos momentos, trazendo mais esperança para romper estas nuvens, nem que seja com chuva, a água tudo lava e as lágrimas também nos limpam.
~CC~
Tu e eu ali no jardim, nos nossos 16 anos.
Mas ela tinha longos cabelos encaracolados presos e era muito magra. E ele, menos caracóis do que tu. Esperou-a no meio do jardim antes de darem as mãos e seguirem para a escola.
Ela disse: não tive tempo de lavar o cabelo hoje, trouxe-o atado.
Era um lamento.
Ele disse: eu tomei banho, lavei o cabelo e até coloquei creme, tudo para ti.
Estava obviamente orgulhoso.
Nunca diríamos estas coisas. Não eras tu, não era eu.
A única coisa igual eram aquelas mãos e o que por elas passava, a intensidade de agarrar o outro e com ele caminhar, todo o universo a desenhar-se em possibilidade infinita, por um momento invencíveis.
Ela está à nossa volta mas são tantas as vezes que não a vemos.
Descobri um trilho que tem um caminho de pedras por dentro da zona verde que envolve o meu local de trabalho. Nesse caminho descobri charcos de água com juncos, inúmeros arbustos carregados de frutos incomestíveis mas belos, flores que sobraram do Verão, gralhas enormes que a todo o momento pousavam à nossa frente e cruzou o nosso caminho um pica pau lindíssimo de longa cauda. Apanhámos medronhos e comemos, um mês a quinze dias antes estariam maravilhosos, os arbustos estavam carregados e eles tinham já secado um pouco. Apanhei alecrim para os temperos. Há abelhas por todo o lado e nem nos ligam, centradas nas flores, até lhes perco o medo. Os múltiplos formatos dos sobreiros, enormes e majestosos, são um oásis para a vista. Também se luta e muito contra os mosquitos, por baixo dos sobreiros entramos no seu amado território.
Mas estava tudo ali? Esteve sempre? Nunca vi, vendo sempre.
Quando os levar por este trilho, a ver o que estando ali nunca viram, vou saber se como eu se derretem na eco poética ou se lamentam, invocando o conforto da sala (e o telemóvel de uso livre por aqui) ou se dispõem a ver. É com estas coisas que todos os anos perco alguns para sempre, este ano quando começar a chuva e lhes disser que tragam capas e galochas para irmos pelo verde que mora na cidade, talvez me abeire de algum desastre, todos os anos fico perto. Arrisco saber se vão gostar de andar de olhos abertos, há também sempre quem goste ou quem aceite abri-los, mesmo que nunca o tenha feito.
Sem desafio, tenho dificuldade de existir e ser.
~CC~
A ouvir, para além do single que passa na rádio.
Mais um presente bom, obrigada, lá estaremos.
~CC~
Entendi muito melhor José Saramago depois do Roteiro Literário sobre o Levantado do Chão. Um livro que nasce da escuta de um território, da capacidade do autor para ir entender o mundo a partir de uma terra tórrida e sofrida, vasculhando a memória de quem trabalhava de sol a sol para pouco comer. Tudo no livro é construído a partir das verdades vertidas em documentos que recolheu minuciosamente e todos os personagens são a sombra dos que realmente existiram. O mapeamento preciso dos lugares que ainda hoje são distantes uns dos outros mergulhou-me num percurso que demorava dias a fazer-se de carroça com mulher e filhos, de praça em praça de jorna, em busca do trabalho agrícola. E há agora novas praças de jorna, se Saramago soubesse...
Duas notas muito comoventes.
Uma das personagens do roteiro é uma mulher já idosa que se dispôs a falar sobre aqueles tempos idos, tão duros e amargos. E conta-os tão bem que todos se calam para a ouvir. Agora, dada a idade, já aparece pouco, por isso é o guia que nos conta a história. Diz-nos que os netos, vendo tanta gente de roda da avó, quando chegaram a casa perguntaram o que estavam ali a fazer aquelas pessoas estranhas e do que estava ela a falar, ao que ela respondeu: estava a contar-lhes as histórias que vocês não querem ouvir, de como era antigamente. E os netos, pela primeira vez, lhe pediram que também lhes contasse essas histórias e ficaram a ouvi-la, deixando-a feliz.
Há no livro Levantado do Chão um menino com 10 anos que vai pela primeira vez à escola, é ele o primeiro a fazê-lo naquela família. E estamos ali, em frente à escola em que isso aconteceu. É ele que depois escreve a história da família, aquela em que Saramago se inspirou. Se todas as crianças pudessem perceber a maravilha do que é poder ir à escola.
Estou ali e apetece-me ficar ali à espera que as crianças cheguem e entrar com elas na sala de aula, como fazia na primeira escola em que dei aulas, há mais de trinta anos. Tive tanto medo de começar e, no entanto, foi tão bom. Nunca mais esqueci o aroma das rosas que os meninos me levavam.
~CC~
Tenho saudades tuas mãe.
A tua voz hoje ao telefone, esse carinho que tão tarde chegou à minha vida, mas ainda a tempo, afinal o amor nunca chega tarde, vem sempre dentro da luz e ela é imune ao batimento dentro dos relógios.
~CC~
Um dia perfeito pode começar extremamente imperfeito. Engolir a minha refeição preferida num ápice e colocar o despertador para as 6h30m da manhã.
E depois o dia endireita-se devagarinho rumo à perfeição e só no dia seguinte sabemos, quando acordamos com o corpo moído de cansaço, que foi afinal um dia perfeito. Tento moderar as minhas expectativas sobre as coisas, aprendi a aligeirar a fasquia depositada em cursos, conferências, viagens, passeios, restaurantes, espectáculos, livros, programas culturais. E se quero ir e não há vaga ou não me escolhem, isso também já não me gera grande sofrimento. Que tal não passe por falta de empenho ou paixão, talvez seja antes a camada protectora que coloquei sobre a pele sensível que toda a vida tive, sensível em excesso. O sol assim queima menos. Primeiro não podia ir pois tinha outros compromissos, depois não havia vaga, e por fim alguém ligou a dizer que podia ir mas não havia lugar para almoçar a maravilhosa degustação alentejana, declinei dizendo esperar outro dia, outra hipótese. E afinal tudo se encaixou, tudo se abriu como aquele céu azul depois da chuva.
Os nomes dados às coisas são tão piores que as coisas. Não gosto especialmente da designação Turismo Literário. Mas é só um nome, também aprendi que os nomes não dizem tudo. E se uma coisa é moda não corras atrás, pode ser gato por lebre. Mas não fujas também só por ser moda, pode ser uma boa moda, um rasgo que se abre num caminho ainda por fazer. Estou assim, tornei-me assim, alguém que ainda pensa três vezes para fazer uma coisa, mas não põe de lado um primeiro impulso, uma vontade, deixa que se aloje e segue. E sobretudo alguém que não põe o medo à frente da maior parte das coisas, que só o deixa vencer algumas vezes, não todas as vezes.
Ontem não venceu, até regressei de noite pela estrada do acidente horrível. Antes tentei vir pela auto-estrada mas era um desvio tão evidente e ainda por cima pago. Claro que no sitio exacto, a memória chegou e agarrei o volante e tremi um pouco, contei à pessoa que vinha ao meu lado que tinha sido ali, exactamente ali. Mas a noite estava clara e não chovia a cântaros.
Juntar livros e paisagens, deixar que as histórias nasçam das pedras e dos lugares, é bonito, não é? Talvez volte para vos contar.
~CC~
Ainda preciso do toque, do cheiro, do som da folha quando a deixo para trás e passo à seguinte. Li apenas dois livros estas férias, nas antípodas um do outro. Humanos exemplares é de uma jovem brasileira, praticamente desconhecida entre nós. Comoveu-me muito por falar de dois professores que faziam da escola casa e família, uma escola pequeno mundo de afectos que já não existe mais. E pelo modo como o seu amor resiste e se transforma atravessando toda a ditadura brasileira. Eram mesmo Humanos exemplares, só no fim o título me fez sentido. Quanto ao grande Clássico " O idiota" é tão actual como absolutamente distante e datado, consegue a proeza dessa intemporalidade ao mesmo tempo que nos traz uma Rússia para sempre perdida. Intemporais são os defeitos e as virtudes dos seres humanos, nunca verdadeiramente transformados para melhor.
Mas não ganhei uma rotina de leitura como gostaria, o que me faz duvidar do objectivo de ler um livro por mês. E em casa é onde menos leio, prefiro o café, o jardim, a praia, lugares que o Outono ameaça e o Inverno ainda mais.
Ainda assim, sei que estou bem com os dedos no papel, ainda viajo.
~CC~
Em Setembro, voltamos ao cinema, não a um qualquer, ao nosso cinema. Felizmente não preciso de ir a um cinema sem porta para a rua. Contudo, fui hesitante. Prometia uma distopia, um filme que anunciava um futuro. Não é coisa que me anime muito. Mas o Último azul surpreendeu-me.
É uma sociedade que coloca os seus velhos sob tutela dos filhos e do Estado, para não estorvarem. Há uma data obrigatória de reforma e um destino de internamento num local vigiado e controlado, com as necessidades básicas supridas de forma igual para todos, como se todos fossem iguais. Até aqui, achamos que já conhecemos uma história assim, em que se tentam expurgar da comunidade todos os que, de alguma forma, fogem à norma.
Contudo, os atores, melhor, as atrizes ou ainda melhor, aquela atriz. Mulher mansa mas determinada, com um grito rouco e um indomável gosto pela liberdade. Corpos de velhas que se mostram sem retoques, sem medo, sem beleza e sem pudor. E até ficam belos pois integram-se naquela natureza exuberante e intensa do Brasil profundo.
Aquele barco deslizando rio acima é um farol de esperança, também eu gostaria de conduzir assim um na minha velhice, afinal ela que sempre quis voar acaba a deslizar na água, espelho que mostra o sol e a lua em todas as suas nuances. Mulher tão forte, tão arrojada, tão louca... e é a sua loucura que é a sua saudável salvação.
~CC~
Cheira intensamente a mar e ouve-se muito o som das ondas, fortes, batidas contra a areia. Do outro lado corre a ribeira e o triângulo de areia recorta-se ali, ainda assim um vasto areal, entre a procura do doce ou do salgado, do selvagem ou do tranquilo, viaja-se na própria vida, feita também destes cambiantes.
Contei apenas catorze casas alojadas na falésia, duas ruas, uma muito íngreme e a outra um pouco menos. Tornou-se famosa sim, não é desconhecida, mas mantém-se praticamente inalterada há mais de vinte anos. Foi casa uma temporada de férias apenas, há já muitos anos e depois só voltei pontualmente. Mas não é o mesmo ir à praia do que estar na praia. Acordar e espreitar como está o sol, o vento, o céu, o lado do rio e o lado do mar, sentir a humidade da manhã, o cheiro a iodo, ver o areal apenas habitado pelas gaivotas ao início e ao final de cada dia. Durante dois períodos de férias não conduzi entre o dia de chegar e o dia de partir, apenas caminhei e fiquei, isso fez-me muito bem.
Num lugar tão belo não é preciso imaginar muito, o bar é apenas o bar da praia e a esplanada a esplanada do mar e mais adiante é o bar da ponta branca porque é o nome do rochedo em frente. Não há conchas, mas o mar traz muitos e muitos seixos de vários tamanhos e formas, ficam espalhados na maré baixa e isso baptizou a própria praia.
O ritual do pôr do sol mantém-se igual, parados, em silêncio, comovidos, um brinde com alguma bebida alcoólica a estarmos vivos mais um dia sobre a terra (isto foi o que A disse e todos concordámos).
Foi casa, foi o final das férias e o regresso à casa abrigo de sempre. Por momentos apetece-me chorar, não há melancolia maior do que a de Setembro.
~CC~
Aconteceu numa manhã na serra de Montemuro, lugar de ser feliz. A manhã acordou cinzenta, estendi a mão e vi as cinzas muito lentamente a cobri-la, depois peguei nos bocadinhos de cinza e desfiz entre os dedos e eles ficaram negros. E o fogo andava longe, a mais de 30km. Essa cortina de cinza encheu-me de silêncio, que todo o centro do país possa arder assim é uma coisa que indigna. Mas as pessoas em comunidade falam e a fala traz o alívio do que é partilhado, pesa menos.
E assim foi também naquele fim de tarde, naquela praia bela, ainda com aquele recorte selvagem, aquelas ondas grandes e altas que os surfistas procuram domar, a cada 5 minutos o apito que não nos deixa entrar na água para além da meia perna. Foi assim que Lisboa chegou, esse lugar icónico, igualmente bonito, a tornar-se lugar de tristeza e de morte. Há sítios que pertencem a todos, mesmo que agora já não sejam iguais a antes, quando a nossa Lisboa ainda não era este destino tão massificado. E a tristeza ficou assim naquele gélido silêncio com que o que é incompreensível nos chega e nos aterroriza. Felizmente não estava ali sozinha, quando acompanhados de quem se gosta muito, a partilha do que se sabe e não se sabe, do que nos junta e nos revolta, traz algum alívio. De resto sabemos quanto a nossa dor é apenas ínfima se comparada com a daqueles que são realmente afectados, quando neles penso estremeço um pouco e espero que haja alguém que os possa abraçar e confortar. Não me inclino para respostas fáceis nem para impulsos justiceiros, revolta-me tanto os rios de tinta e horas e horas de comentário político sobre o assunto como qualquer silêncio que se faz ou venha a fazer-se.
E o que mais indigna é que tanto conhecimento gerado no mundo não seja capaz de mudar o que realmente importa.
~CC~
Procurar fazer casa onde é possível fazê-la porque tratar por tu um lugar é algo que desde sempre procurei, como quem traça abrigos no mapa do país. Não pensava voltar assim tantas vezes ao Barlavento, era lugar distante desde os tempos da casa da colina em Lagos onde um dia até imaginei viver.
Pessoas que partilham as suas casas de férias são equivalentes às que antes se sentavam a partilhar o pão. O Algarve está caríssimo para a grande maioria dos Portugueses e fico atónita com os preços de praticamente tudo. Até onde iremos?! Já o rapaz de tez morena e turbante que grelha o peixe (sim, até está atividade) com sorte ganhará o ordenado mínimo.
Claro que sou como todos os outros, pousados os olhos na beleza das enseadas e falésias esqueço-me dos males do mundo e o peito enche-se de sal e ganho sorrisos que coloco em armazém para dias cinzentos.
*CC*
Uma parte de mim ficou lá, só vou regressando lentamente.
Isso acontece-me sempre nos lugares bons, fico a saboreá-los como um rebuçado de longa duração que desembrulho para encher as células de ar feliz.
São duas aldeias muito próximas, vizinhas. E desta vez não consegui ficar na aldeia do festival de teatro, é verdadeiramente difícil, até na outra é. Achamos que as aldeias repelem os estranhos como se fossem mosquitos incómodos, mas ali não é assim, todos nos cumprimentam e acolhem. Mas é verdade que a população triplica com os familiares que chegam e fico impressionada com as pessoas que moram longe e que vão todos os anos, estejam ou não em Portugal. Há assim jovens e crianças por todo o lado, renovando amizades que só existem nesta altura do ano, mas que são um destino certo. De repente toda a aldeia não é mais do que um conjunto de primos que ora almoçam numa casa ora noutra e vemos as pessoas a circular com as sobremesas, o pão, o vinho, já que a água, essa vai-se buscar fresquinha à fonte.
Esperam por nós todas as noites para descermos ao festival, formamos o grupo e vamos e voltamos juntos e a pé. Na ida conversamos e trocamos ideias e histórias e na volta falamos sobre a peça que vimos. Há um céu imenso por cima de nós, pejado de estrelas. A sensação de felicidade é intensa, parece estar tudo bem e no lugar certo, até eu.
~CC~
No final de julho, no cabeleireiro, um homem na casa dos quarenta proferiu uma daquelas frases que parecem saídas de algum catálogo sobre bem viver. Pois bem, disse que para ele qualquer dia de férias era melhor do que um dia de trabalho. Nova geração, pensei, muitos homens da outra sentiam vazio ou inquietude, não sabiam estar de férias, alegrou-me que ele soubesse e ri-me. Claro que ele me perguntou logo se eu concordava, com aquele sorriso radiante que anunciava muito gin, muito aperol, muito sunset.
Não podia dizer-lhe, por isso só sorri e abanei a cabeça, concordar poderia aumentar ainda mais aquela felicidade que já parecia inundá-lo.
No silêncio do Verão, sobretudo se está muito calor, chegam por vezes sombras. Começa como uma onda pequenina em torno de um desgosto, um sinal de desamor, uma injustiça que me foi feita, uma memória má que tanto pode ser recente como tão lá atrás que escavo, escavo para chegar até ela. E essa onda cresce, cresce... e já não é fora de mim, é cá dentro junto ao coração e não me deixa respirar. E se estou em casa as paredes parecem inclinar-se e prestes a desabar e não consigo estar em lugar nenhum, vou de espaço em espaço à procura de um lugar mas não encontro abrigo. E já não há qualquer ligação ao motivo triste que originou tal coisa, já é só a coisa, um monstro que corre atrás de mim e dentro de mim. Não consigo então fazer as coisas mais simples: comer, tomar banho, ler, ver televisão. Muito mais em casa, mas já aconteceu no cabeleireiro, no dentista, no café, na rua e até na praia. Posso colocar-lhe um nome, chamar-lhe crise de ansiedade ou de pânico, mas para que servem os nomes? Claro que tenho medicação de emergência mas ter que tomá-la deixa-me muito triste, por isso evito e tento outras soluções. Poderia talvez já ter encontrado, mas na verdade o que resulta uma vez, pode não resultar uma segunda, por isso continuo na minha busca.
Como pode tal coisa acontecer nesta estação do ano que é toda luz e brilho? Como pode isto acontecer no tempo em que é possível apanhar conchas, andar dentro do mar, comer gelados, ver crepúsculos tão tardios e belos?! Esta desarmonia desarruma-me, evidencia-me com clareza que tenho tanta facilidade em ser feliz como dificuldade. Quis dizer-vos porque dizê-lo, é talvez das únicas coisas que parece sempre resultar, com a palavra fora de mim chega pouco a pouco uma acalmia, sobretudo se ela é acolhida.
~CC~
Estou a 1000m de altitude, o ar circula de forma diferente.
Em grupo eles cantam, os mais velhos têm destaque, mas procuram integrar os mais novos. Admiro até à medula o trabalho daquelas pessoas e dele, sobretudo dele. Há uma humildade, uma singeleza, uma energia tranquila, os olhos azuis muito bonitos num rosto levemente tisnado. Já deve ter sido um homem muito bonito mas conserva, creio mesmo que a idade lhe terá acrescentado mais beleza. O poema é sobre a mãe, de um autor popular, desconhecido. E ele chora, chora tanto que abandona por momentos a sala. Poderia amar aquele homem, talvez o ame. E contudo esse amor chega-me sem desejo de possuir ou de ter, tenho a consciência de que as nossas vidas jamais se poderiam cruzar.
Mas enche-me de felicidade achar um homem belo, admirá-lo. Em geral não acho os homens nem atraentes, nem interessantes, raramente me fascinam. Este congrega a lua e o sol em grande harmonia.
~CC~
A maré desceu muito, quando assim acontece e é manhã bem cedo, tenho um invulgar prazer em deixar os meus pés marcados na areia. Deixo-os na ida e na volta e fico a observá-los como quem confirma a sua existência. Hoje tive um encontro inédito e belo com um polvo bebé. Nunca me tinha acontecido. A princípio vi apenas algo a mexer-se na areia, quase tão transparente como a água. Afastei as gaivotas que rondavam para ver melhor, o polvo queria voltar à água e mexia-se devagarinho pela areia, talvez tivesse sido surpreendido pela descida súbita da maré, talvez não estivesse bem. Queria muito ajudá-lo mas não sabia como. Como pegar nele sem o magoar e sem me magoar e deixá-lo ir para que crescesse, tivesse ainda dias de algas e mergulhos. Não sabia, como podemos ser tão ignorantes. Mas ele mexia-se muito corajoso e decidido e a maré estava a subir, fiquei apenas a afastar as gaivotas, com receio que alguma o debicasse. E ele lá foi, tão transparente como a água.
~CC~
Agora vou passear para outras ruas, sem nada que me prenda, talvez até voe, se conseguir levantar os pés do chão em vez de os deixar presos a amarguras.
Só volto por isto e para isto.
https://www.facebook.com/FestivalTeatroSetubal/?locale=pt_PT
Os verdadeiros habitantes das praias não somos nós, meros passeantes de Verão. Os que sabem do mar, da areia, dos animais marinhos, dos fósseis, dos pássaros, esses vivem lá todo o ano. Estou certa que nestes dias turbulentos...ou chegam de madrugada ou ao crepúsculo ou não aparecem. A mulher de calças e t-shirt e sapatos de ir à água, muito magra e tisnada do sol, de idade indistinta mas sem dúvida acima dos sessenta, saco de pano a tiracolo era um desses seres misteriosos, outros habitantes da praia. O que fazia ela antes de todos ou quase todos chegarem? Com uma caninha, ela revirava as conchas, as pedras, os buraquinhos da areia, cada duna, cada amontoado de fósseis. Era raro apanhar alguma coisa e eu não conseguia ver com clareza o que é que ela achava que valia a pena. Apenas três ou quatro vezes isso aconteceu e ela colocou algo dentro do saco. Percebi que aquilo não era um acaso, não era uma mania, não era uma coleccionadora, aquilo era um trabalho. Imaginei que as conchinhas dos chapéus, dos colares, das pulseiras talvez fossem afinal recolhidas por pessoas como ela? Quem as apanha afinal? Quem as fornece a quem cria aqueles adornos?
Tal como apareceu no meu horizonte, assim desapareceu silenciosamente. Tudo isto se passa antes dos banheiros chegarem, supostamente às nove, mas muitas vezes só às nove e meia, não raro às dez. Nós, os turistas velhos e os muito, muito novos (famílias com bebés com menos 2 anos), tomamos banho sem bandeira, adivinhando pela ondulação e pela maré. A mulher das conchinhas nem toma banho nem se estende na areia, a praia é o seu ofício, ela é como os pássaros, deve detestar que lhe roubemos desta forma o areal. Toda ela era aliás um ser alado, se tivesse aberto os braços e voado eu não me teria admirado.
~CC~
A maré subiu uma primeira vez, obrigando a um recuo estratégico de alguns passos para trás. Depois começou a subir mais veloz, galgando a primeira elevação da praia com enorme facilidade, as ondas subiam e pareciam mansas mas tinham força suficiente. Cada um ergueu perto de si uma barreira tímida de areia, facilmente demolida pela vaga seguinte. E foi então, perante a possibilidade de um recuo tão grande que apenas sobrava a última duna, já com alguma vegetação, que despertaram engenheiros e engenheiras construindo covas e diques numa colaboração conjunta de sorrisos e palavras cúmplices. Usaram-se pés, mãos e baldes, cavando um fosso e depois uma barreira e depois um fosso. E foram crianças, homens e mulheres numa impressionante comunidade instantaneamente construída para salvar o areal e a tarde de Verão. Se as pessoas fossem sempre assim, o que não conseguiriam fazer.
E até houve um homem que não quis acordar a sua amada que debaixo do chapéu de sol dormiu uma prolongada sesta enquanto tudo isto acontecia, impressionou-me aquela capacidade de sono solto, tanto como a generosidade dele. Quando ela acordou, já a agua tinha recuado e ele apontou-lhe as construções que a tinham salvo, obra de tantos e dele também. No seu sorriso espantado espelhava-se a ignorância que tantos temos de quem trabalha para nós e nos é invisível.
Na manhã seguinte, muito cedo, maré vazia, o tractor alisava tudo, os diques, os tuneis e também as dunas que o recuo do mar tinha deixado. Santa ignorância, em vez de deixar os declives naturais, o tractor fazia uma espécie de rampas, muito mais fáceis para o mar galgar durante a tarde. Não fiquei para ver as possíveis construções que as pessoas muito provavelmente iriam tentar erguer, mas estou certa que seria uma obra mais difícil.
Fiquei a interrogar-me bastante sobre esta costa que tanto amamos e sobre a possibilidade (ou não) desta comunidade que ali se fez poder ser algo mais que a defesa de uma tarde de Verão.
~CC~
Nota: este título é uma homenagem a Marguerite Duras e ao seu livro Barragem contra o Pacífico, autora que muito li e admirei, talvez a única que mesmo inconscientemente tenha procurado imitar.
Reparei nelas pousadas duas a duas de cada lado da minha boca. São novas estas rugas. E são as que mais me custam, este adorno parece retirar a vitalidade dos lábios, tolher-me a palavra. São mais duras do que as da testa e das que estão em torno dos olhos. Atribuo a cada uma delas chatices que ultimamente me têm chegado, coisas de mal dizer que ainda me afectam e já devia encolher os ombros e ignorá-las, tenho de treinar mais e mais.
Mas na realidade é um artifício, envelheceria na mesma sem as sombras. E não me venham dizer que as rugas são bonitas e que o envelhecimento é bom. Aceitá-lo, integrá-lo, perceber o que traz de positivo é uma coisa, agora enaltecer a forma como o corpo nos deixa de responder e como o rosto perde vivacidade e cor, isso já não. Aceitar sim, como aceitamos outras coisas. Sabemos que não adianta renegar e que quem renega fica ainda pior com o seu rosto e pescoço esticado, o seu peito insuflado e inúmeros retoques que roubam a expressão. Não é o meu caminho.
Envelheci este Verão. Talvez por isso se me demore o olhar nos bolinhos de conchas e penas que ficam deixados na praia.
~CC~
Sentadas nas suas cadeiras de praia, muito magras, ainda antes de eu chegar, o que quer dizer antes das 9h. Ao início nem olhei, pensei que entre tantos estrangeiros seriam só mais duas sem paciência para deitar o corpinho na areia.
Mas depois chegou o sotaque, era puro algarvio como há muito não ouvia. E reparei. Dois chapéus de palha e dois fatos de banho daqueles dos anos setenta, não uma imitação, mas por certo ainda retirados de algum baú, ainda que não parecessem novos, estavam mesmo um pouco desbotados. E as cadeiras, as cadeiras também eram das primeiras que vi na praia, nada destas modernas que se enterram quase na areia. Nem queria acreditar quando uma delas disse que já tinha deixado os carapaus alimados para o almoço, depois era só cozer uma batatinha e uma salada. E explicou como fazia para os alimar. Ali entre todas as línguas do mundo, mulheres velhas com peitos postiços, novas com muto ginásio, mães jovens sempre atrás dos filhos, ali estavam aquelas duas mulheres tão serenas, tão livres, duas pérolas.
É bom, não é? Eu dantes nunca vinha. Agora apanho o vai e vem, passa mesmo à minha porta.
Aposto que naquele "dantes" estavam maridos já não moram neste mundo.
Estive quase para me convidar para os carapaus alimados.
~CC~
Quando enfio a mão na mala até ao fundo encontro pequenos búzios ou conchas. E é por isso que sei que mora em mim essa miúda lunar que tu ainda encontras e a quem ainda amas.
Mas também tenho uma carteira e nela há cartões vários, alguns de descontos. E é por isso que sei que cresci, envelheci, matei-me a trabalhar para não ter ainda quase nada, sei que não nos encontraremos, que nunca me amarás novamente.
Mas isto são só devaneios a partir de uma mala de mão. Nela também guardo a imensa saudade que tenho de ti e de mim. Fica lá tão bem guardada que passo os dias sem dar por ela.
~CC~
Esta mulher reinventa-se e tem imensa graça...creio que se fosse uma miúda a cantar isto não seria o mesmo, mas alguém que já dobrou os sessenta tem.
Às vezes preciso tanto de me rir, estas coisas cortam-me a tristeza pela raiz.
~CC~
Em qualquer lugar, a qualquer hora, espreita o mal.
Fila do supermercado, não muito extensa.
Vejo-os passar por mim e noto-os mais porque são vários, um homem, duas mulheres, algumas crianças. E tão pouca coisa que levam. Mas sim, passam à frente na fila. Primeiro reparo nas crianças, são pequenas, nenhuma de colo. E reparo na mulher, sim, justificado.
E como todas as pessoas cobardes, só depois deles terem saído, a senhora, que parecia tão simples, tão calma se me dirige: inacreditável, como nos passaram à frente?! E eu: mas a senhora não viu? A mulher estava grávida, a barriga já era bem visível...e logo a funcionária da Caixa: eu também vi, se não, não deixava, não tenho medo deles...
A hostilidade das duas era mais que evidente, com ambas a dizer que podiam ter dito, podiam ter pedido, mas são ciganos e acham que podem fazer tudo.
Ora eu nunca vi uma grávida ou uma mãe com criança de colo numa fila perguntar se podia passar à frente, não pede pois está no uso de um direito que lhe assiste e é algo visível.
Nestas situações percebemos tão bem como a terra está tão preparada para receber a semente do ódio, tão pouco preparada para o seu inverso.
~CC~
Juntos numa festa de anos, famílias que um par uniu e que por eles e com eles se aproximam, para lá das tantas distâncias, os pontos de encontro podem ser feitos da simplicidade que liga as pessoas boas.
Juntos no quintalinho em torno de uns frangos assados, uma salada de curgete e outra de beterraba com laranja, tudo produtos que alguém trouxe do lugar a mais de 100 Km onde mora. Nunca perdemos contacto mas jamais pensamos um dia estarmos ali, num só porque sim.
Juntos no meio da arrábida, onde inesperadamente crescem bananeiras e alcachofras, porque a terra pode ser generosa com quem a ama e os desconhecidos podem juntar-se para caminhar e comer uma melancia arrefecida na água da fonte. Alguns nunca mais verei.
Juntos porque me ligas por me saberes triste e me queres dar notícias para me animar, me fortalecer, me dar horizonte, não obstante em tantos quotidianos triviais não me atenderes o telefone.
Juntos depois de mais de trinta anos sem nos vermos, sentir o nosso encontro colectivo tão bafejado de alegria, viajamos entre o passado e o presente mas não nos deixamos prender nas teias de quem está ali só para recordar tempos velhos e já gastos, queremos ser um agora e um presente.
Juntos aqui na minha casa, a minha família mais estreita, mais consistente, mais imponderável, laços que nunca perdemos e reavivamos agora numa configuração adulta e sem amarras.
As pessoas boas, as pessoas boas juntas, eis o que nunca me deixa cair.
~CC~
Chegaram tardiamente e muito caras, mas invulgarmente grandes.
Compro apenas meio quilo, lavo metade e deixo-as no frigorifico. São tão belas nesta sua cor, nestas suas matizes de vermelho e rosa. Algumas são doces, outras meio ácidas, mas têm que ter sempre a polpa rija na primeira dentada. Como cinco e devagar. Deixo o caroço na boca um bocadinho, gosto de o sentir e prolonga o momento até à seguinte. Está muito calor e estou muito cansada. Mas tenho as cerejas. Tenho o meu gosto por elas, por as morder, por as sentir, por as agradecer.
E em cada cereja comida há uma lágrima que se escondeu dentro dela e se transformou em vontade de sorrir. Hoje consegui cinco sorrisos vermelhinhos.
~CC~
Aqui na mesa um casal jovem, abaixo dos 30 falou durante quase duas horas, melhor, ele falou quase sempre e ela mal conseguiu terminar uma frase.
Ela, uma miúda negra giríssima e muito simples.
Ele, aparentemente um jovem normalíssimo, um bocado descolorado é certo, mas na realidade um filósofo em parte gerado nas redes sociais, em parte em alguma igreja ou credo ou afins, cujo nome específico não foi dito, discorreu durante mais de duas horas sobre a sociedade, a religião e a profunda diferença entre homens e mulheres...chegou a questionar se ela era católica e a criticar o facto dela usar o termo leis quando devia querer dizer regras.
Finalmente ela disse que lhe apetecia um gelado. Creio que não haverá segundo encontro. Eu iria mais longe, apagaria imediatamente o número dele da lista de contactos.
~CC~
Agora sim, vivo finalmente num território e já posso tratar por tu as coisas que acontecem.
E há comboio!
~CC~
Levei-te cinco flores de diferentes cores, das mais resistentes ao calor. Estava vazia a jarrinha, meio triste o teu lugar, como ainda não o tinha visto. Tanto que gostavas do sol e do Verão. Por mais de três vezes toquei no botão que me levava ao teu andar e não ao outro, onde reside agora a tua filha mais velha. E quando a porta se abria tomava consciência do erro, mas ao mesmo tempo foi ele que me permitiu ver a coroa de flores na porta e o tapete tão colorido. Acho que aprovarias essas pessoas que moram agora na tua casa, tantos enfeites logo à entrada, imagino lá dentro. Tu também gostavas dessas coisas, de tudo o que serve para enfeitar e até de flores artificiais que duram para sempre. A florista bem me recomendou que deixasse lá umas flores duradouras, que ela também tinha umas bem bonitas para cemitérios, mas não fui capaz, só gosto de flores naturais.
Em tantas coisas ainda sinto a presença dela pela cidade, em tantos cantos, tantos cafés, tantas lojas, ali junto à marina. Houve tempos em que todos esses passeios ainda a alegravam muito e só por fim já nada era capaz de o fazer. E fui perdendo aos poucos a dor de ter vivido ali duas perdas tão intensas. Quem cessa a dor de repente ou não amou ou não sabe vivê-la, não é capaz. Foi um tempo longo, foi um caminho longo e muito lutei para não o sentir como um tempo inútil que podia ter gasto noutro lugar, noutro amor. Felizmente as lágrimas que um dia caíram em abundância no caminho até à praia secaram completamente. Agora sinto este caminho para o mar como aquilo que ele representou na minha adolescência, a liberdade, a sua descoberta. Talvez por isso tenha apanhado na praia três búzios pequeninos e os guardado como nesse altura fazia. E no regresso aberto as janelas do carro, trauteando desafinada "tenho um sorriso fechado na palma da minha mão" (Trovante)*. Talvez algum dia alguém o venha buscar, ainda assim, se não acontecer, tenho-o, tenho-o como um bem maior.
~CC~
* e com esta música também tu chegaste, minha amiga (não acredito, não posso).
9.09 - Primeiro banho de mar de água gelada mas tão transparente, tão bonita, mergulho entre pequenos peixinhos. Quase ninguém, silêncio tão bom.
9h30m- Chegam as crianças, são muitos grupos e com muitos meninos, há bonés amarelos, azuis, fatos de banho todos iguais em alguns grupos e noutros todos diversos, bem clara a origem social. Muitas vozes, muitos gritinhos...
10h - Chegam os grupos de idosos dos centros sociais, a técnica traz uma bola muito leve e trocam-na entre eles no círculo dentro de água. São silenciosos, mas às vezes escapa uma asneira.
10h30m - Chegam os adolescentes em grupos de 6 a 8, trazem farnel para o dia todo. Atiram-se à agua ao desafio em chapões, como é que a adolescência é tão diferente e ao mesmo tempo sempre igual.
11h Café, cada ano mais caro. Mas a mais bela das janelas.
11h15m -Regresso ao trabalho em casa até pelo menos às 20h.
Infelizmente nem todos os dias de Junho poderão ser assim, bem vistas as coisas era capaz de gostar desta rotina, eu que sou tão avessa a elas.
~CC~
Quando os ventos no campo profissional se agitam turbulentos e deles já só esperava mansidão e me zango quando já não me esperava zangar-me, há sempre algo que vem romper a tristeza da situação, normalmente um encontro casual com um jovem ou adulto de quem já fui docente e que entre abraços, às vezes lágrimas, outras pedidos de telefone que sugerem projetos ou criações futuras, me agradece. Nenhum deles sonha que às vezes rompeu um momento de negrume.
Fico com a certeza de que as pessoas são ainda assim mais capazes de bondade e gratidão que as instituições, estas tendem a ser como os partidos políticos, gigantescas máquinas de trucidar insurgentes, mais atreitas à mentira e à ilusão do que à verdade e ao confrontamento. O que fica de nós no mundo é sempre esse bocadinho que deixámos no coração de alguém.
~CC~
Chegou ao fim o Clube de Leitura que dinamizei este ano com estudantes e que resultou de uma candidatura ao Plano Nacional de Leitura. Foi uma experiência tão maravilhosa quanto dura. Dura quando as sessões ficavam quase vazias, maravilhosa sempre que as pessoas apareciam. De resto o conteúdo ou a dinâmica não são o mais relevante, apenas termos gente. Veio uma jornalista ouvir-nos e foi muito bonito, talvez das coisas mais bonitas. Nesse dia lemos um livro infantil baseado na história de vida da Marielle, a ativista brasileira assassinada no Rio de Janeiro. E foi a um sábado à tarde, alguma gente, não tanta quanto desejável, e apesar da minha filosofia ser sempre a de que contam os que estão, às vezes são mesmo poucos.
Duvido das estatísticas que ora apontam euforia ou depressão quando relacionadas com livros. Cresce o império dos livros triviais, sem grande brilho, ainda assim se há quem leia por causa disso, é deixar existir. A maior parte lê apenas nas redes sociais, pequenas noticias, muitas coisas motivacionais ou de gente famosa ou de infuencers (até me custa usar esta palavra).
Com tudo isto eu própria cheguei à conclusão que não leio o suficiente, poderia com facilidade escudar-me no excesso de trabalho e estaria a dizer a verdade. Mas não seria a única verdade, poderia não ligar a televisão uma ou duas noites por semana, poderia gastar uma hora por dia a ler numa esplanada. Os clubes de leitura, com tudo o que bom e de mau têm, obrigam-nos a ler um livro por mês (o meu não era assim, seria impossível dinamizar um clube desse tipo no ensino superior, com estudantes). Já comprei o deste mês, surpreendentemente numa semana li um terço, o que me mostrou que é possível.
Não sei se há desse lado experiências com Clubes de Leitura, mas gostava de saber.
~CC~
Nota: Ainda a propósito de pessoas agredidas pela suas ideias e pela sua arte, Adérito Lopes é actor mas é também um maravilhoso professor de teatro, daqueles que recupera miúdos que há muito parecem descrer da escola e do seu potencial. Um murro nele é um murro na humanidade.
Ao início da tarde de Domingo, passei de carro e pasmei com a fila enorme de domingo à porta do Russo dos Caracóis. Pensei com os meus botões que há coisas no mundo que não compreendo e esta é uma delas.
Ao final da tarde, quase noite, oiço gritos e palmas na rua. Ligo a televisão e comprovo, a selecção de Portugal está a jogar. Também há coisas que não compreendo sobre mim, uma delas é não saber destas coisas, conseguir não saber uma coisa que todos parecem dominar.
Quem sabe a primeira e a segunda coisa até estão relacionadas.
~CC~
Vejo flores, inundam Junho.
Atrai-me muito o girassol e o seu poder, essa energia vibrante que se vira sempre para buscar o sol e se põe por inteiro nas coisas para as transformar. Mas ao mesmo tempo esse amarelo que pulsa e vibra e tudo parece absorver, assusta, queima, distancia. Aprecio o seu poder mágico, ao mesmo tempo que o receio. Vejo as margaridas pequeninas mas tão poderosas porque muitas juntas criam um tapete que embala o vento. Mas tantas coisas iguais juntas criam a monotonia, um suave tempo que sem diferença é excessivo em harmonia. O girassol é jovem, a margarida uma velhinha. Um dia sinto-me girassol, no outro uma margarida. Um dia quero para mim o girassol, no outro uma margarida. É assim que vivo, entre flores que são diferentes partes do que desejo, sou e quero
~CC~
A criança chegou com os pais e devia ter pelo menos uns 8 anos. Apesar de serem apenas 9 da manhã não pode tirar a t-shirt nem o chapéu e os pais listaram oralmente todas as brincadeiras que podia fazer, mas recomendaram expressamente uma. A criança não abriu a boca e ficou sentada na areia a olhar o mar, tão parada e quieta que não parecia ser real. E isto a ocorrer no dia que simbolicamente seria o dela.
Que sorte tiveram as miúdas que criei, mal chegavam à praia inauguravam o festival de pinos e rodas e depois esgueiravam-se para a água até ficarem com os lábios roxos. Aos três anos ou quatro anos deixámos de levar baldes e outros objetos mais ou menos inúteis, chegava ter corpo e mãos.
As bolas de berlim só tinham duas modalidades, com e sem creme. Nada mais nos fazia falta.
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Tantas reproduções que já tinha visto do Guernica, tantas. E ali diante do quadro real a dificuldade que tive em estancar as minhas lágrimas. Estava ali tudo, todos os gritos do mundo que me angustiam e enegrecem a beleza dos dias.
E segui pela sala em frente para ficar quieta e muda diante das mulheres que choram. Mulheres que têm fome, mulheres que perderam filhos, mulheres que ficam para trás em tempo de guerra e fazem dos escombros as suas casas. Estavam ali as mulheres de Gaza, as mais meninas, as mais adultas, as mais velhas. E estava também eu e o meu corpo com partes em falta, esse corpo que tapado me parece aceitável e nu me envergonha, estava também ali o meu choro sem lágrimas na cama do hospital, nos amores que morreram, nos amores que não nascem.
E depois vi a minha filha lá ao fundo numa sala, a olhar demoradamente os quadros e senti tanto orgulho nela, quando nos encontrámos no jardim já tinha o rosto limpo e provavelmente até sorria.
Chamam-nos mocinhas naquele tom açucarado que trouxeram do outro lado do Atlântico. E convencem-nos com facilidade a endireitar as costas, a esticar as pernas e os braços, naquela ilusão de que os nossos corpos podem não ceder totalmente à gravidade. Mas não somos todas quase idosas ou idosos, há pessoas de todas as idades e algumas jovens, fico espantada com a sua opção por não escolherem os mega ginásios mas um pequeníssimo estúdio de Pilates. Dizem-se fisioterapeutas e eu acredito, mesmo sem ver o diploma, são criativas e bem dispostas, uma um pouco mais experiente que a outra.
Talvez por ser a mais novinha, ela tenha pisado o risco. Até queria ser simpática, elogiou a senhora de meia idade, dizendo-lhe: a senhora tem um corpinho de fazer inveja, que cinturinha! Só que seguidamente: a senhora nunca foi mãe, pois não?! A senhora engasgou-se, respondeu baixinho: sou mãe, mas não biológica. Reparei no cabelo curto, na voz forte, no seu jeito masculino e talvez me engane mas pareceu-me uma orientação sexual predominante para pessoas do mesmo sexo. A pergunta já tinha sido um pouco invasiva, mas naquele caso talvez o tenha sido mais. A mocinha precisa de juntar à destreza física um pouco de psicologia, afinal não é coisa que faça mal a ninguém.
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